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O cérebro em construção

Uma bela sinfonia pueril
 

Nos três primeiros anos de vida de uma criança, o cérebro realiza mais conexões neurais do que na idade adulta. Um dos campos da medicina que mais avançam é o da investigação de como os estímulos podem exercitar os mecanismos mentais e um bebê.
 

Ao primeiro esgar, os pais. rápida e comovidamente, abrem um sorriso — como se a reação do bebê não fosse um mero reflexo, alheio à gracinha paterna. O choro incessante, a primeira palavra, o passo titubeante, o levanta e cai, a birra e as perguntas intermináveis, cada vez mais irrespondíveis. Aquela coisinha que até outro dia mal balbuciava e dormia dois terços do tempo começa a formar frases completas. Os primeiros três anos de uma criança são uma extraordinária sinfonia cognitiva, motora e de linguagem. Sem nenhum conhecimento sobre o mundo que o espera, um bebê nasce afeito a se adequar, com o passar dos dias, ao ambiente ao qual será exposto. Na orquestra do cérebro, os instrumentos vão aparecendo, somam-se aos que já se apresentaram, em uma movimentação complexa e delicada que não se repetirá nunca mais, mesmo na adolescência e, especialmente, na maturidade. Os fatores genéticos são decisivos, mas os estímulos externos recebidos durante os 36 primeiros meses da infância são cruciais na construção da arquitetura cerebral. Poucas horas depois do parto, cada neurônio já realiza 2500 sinapses. Rapidamente, as conexões se multiplicam, chegam a 700 novas por segundo, atingem trilhões (um adulto tem metade das conexões neurais de um bebê). "Em nenhuma outra fase da vida as respostas aos estímulos são tão rápidas, amplas e intensas", disse a VEJA Jack Shonkoff, diretor do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard, nos Estados Unidos. "O cérebro da criança depende de experiências e interações para conseguir se desenvolver. Toda interação entre os pais e a criança durante esse período terá repercussão futura."
 

As principais pesquisas sobre o desenvolvimento infantil sob a ótica da neurociência surgiram no fim da década de 90. Deram um passo fenomenal, recentemente, com a evolução dos exames de imagem, que permitiram entender melhor o que se passa no cérebro de crianças muito pequenas. Poucas áreas da ciência evoluíram tanto nos últimos dez anos, ancoradas em um princípio: se é verdade que o cérebro de um adulto se forma na primeiríssima infância, se é verdade que o menino é o pai do homem, saber o que vai por dentro do crânio de um bebê é crucial. Nellie. a menininha da foto que abre esta reportagem, com 128 eletrodos conectados ao cérebro, faz parte de uma pesquisa da Universidade de Uppsala, na Suécia. O objetivo dos pesquisadores é entender o mecanismo cerebral de um autista, em comparação ao de bebês saudáveis, dilema ainda não solucionado pela medicina. Ela tem pouco menos de 1 ano, fase em que a plasticidade cerebral está em seu auge e as alterações são perceptíveis. Passado esse período de proliferação de conexões, dá-se um processo conhecido como poda neural, depois do qual as ligações entre neurônios subutilizadas são desligadas, em um processo de seleção natural, e apenas as decisivas permanecem. É o fim do turbilhão, o início da calmaria. Do ponto de vista dos cientistas, fecha-se a magnífica janela de oportunidade para investigar as estruturas mentais.
 

A formação do cérebro começa cedo. Três semanas depois da concepção, o tronco cerebral, responsável por funções básicas como respiração, batimentos cardíacos e reflexos, já começa a ser montado. Ainda durante a gestação, o feto já é capaz de sentir sabores da dieta da mãe e de escutar sons externos, inicialmente a voz dos pais, como revela o documentário^ Vida Secreta dos Bebês, realizado pela BBC e exibido em capítulos desde o início de janeiro pelo Fantástico, da Rede Globo. Pelo menos um terço dos 20000 genes que formam o genoma humano é recrutado para a elaboração do órgão mais complexo do ser humano. A evolução do cérebro respeita uma hierarquia. Em primeiro lugar amadurecem os circuitos subcorticais que processam atividades mais simples, que comandam funções como os reflexos e a coordenação dos movimentos.
 

Depois é a vez dos circuitos mais complexos, como o córtex pré-frontal, associado a decisões elaboradas, como o planejamento, o comportamento e a personalidade. O momento da aquisição de cada habilidade é conhecido como período sensível. A visão e a audição são formadas nos primeiros meses de vida. Entre os 6 e os 12 meses de idade, abre-se uma porta que permite a diferenciação da fala. Na hierarquia neural que processa as informações visuais, os circuitos de nível inferior, que analisam cor, forma ou movimento. estão totalmente maduros muito antes dos circuitos de nível superior, que interpretam estímulos sofisticados, como o reconhecimento de rostos. De nada adianta, portanto, a tentativa de criar um "superbebê". O mesmo se dá na alfabetização. Mostrar um livro com figuras a uma criança que está aprendendo a falar e apontar as ilustrações é melhor do que a tentativa de ensinar as palavras escritas. A capacidade de decodificar a linguagem escrita ocorre somente mais tarde. Os especialistas comparam esse processo ao da construção de uma casa: bases sólidas garantem um prédio forte e indestrutível. "De todos os órgãos fetais, o sistema nervoso central é o mais sensível às influências externas. O estímulo começa desde o nascimento e vai até a adolescência", diz Saul Cypel, neuropediatra da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Tudo o que uma criança vê, toca, sente, experimenta é traduzido em milhares de sinapses — para o bem e para o mal.
 

Quem acredita que um bebê é muito pequeno para se incomodar com uma briga entre os pais, por exemplo, está enganado. Ainda recém-nascido, ele já consegue entender a diferença entre uma voz calma e um grito nervoso. Sabe também da importância do colo, do canto e da conversa. O organismo tem uma memória biológica. Aqueles que vivenciaram situações estressantes, como discussões freqüentes entre os pais, ou sofreram abuso físico ou emocional podem ter seu desenvolvimento prejudicado. A experiência negativa ativa o sistema de resposta ao stress e produz em excesso substâncias que se tornam danosas ao organismo (veja o quadro ao lado). A exposição prolongada ao stress durante a infância está relacionada a um maior índice de derrame, infarto, diabetes e depressão na vida adulta. O stress tóxico, como é chamado pelos especialistas, também ocorre quando o pequeno recebe cobranças exageradas e ainda não possui maturidade para lidar com as demandas. "É muito freqüente ver casos de crianças que têm uma inteligência adequada para a idade, mas sem maturidade emocional correspondente", explica Cypel. "Em geral, isso ocorre porque elas não foram incentivadas durante o processo de desenvolvimento a adquirir a autonomia necessária para então chegar à próxima etapa."
 

O estudo mais clássico sobre o tema é do neurocientista americano Charles Nelson, realizado em orfanatos da Romênia, frios e paradoxalmente silenciosos. Nelson percebeu que os bebês. deitados sozinhos no berço por horas, raramente choravam e passavam a maior parte do tempo encarando um teto branco. Muitas vezes, balançavam as mãos na tentativa de estimular a si próprios. Alguns dos órfãos eram estrábicos, pois não foram estimulados a desenvolver a capacidade de seguir com os olhos nos primeiros anos de vida. Todas as crianças da instituição cumpriam a mesma rotina: acordavam às 6h30, cochilavam entre 13 e 15 horas e eram colocadas de volta na cama às 20 horas. As interações com adultos eram raras. "Fiquei de coração partido quando cheguei lá. É triste ver dezenas de crianças completamente abandonadas devido a um terrível experimento de engenharia social", disse Nelson a VEJA. Ele se refere às medidas impostas pelo ditador comunista Nicolae Ceausescu, deposto e morto em 1989. Em 1966, Ceausescu proibiu a contracepção, vetou os abortos e criou um imposto celibato — cobrado das famílias que tinham menos de três filhos. O objetivo da medida descabida era construir uma classe trabalhadora numerosa e leal. O resultado alcançado: 170000 crianças vivendo em orfanatos logo ao fim do regime. "As condições eram precárias. As crianças com problemas de desenvolvimento neurológico e doenças infecciosas ficavam em uma ala separada. e muitas vezes amarradas", diz Nelson. "Em outra, dezenas dividiam o mesmo espaço. Quase não tinham amor, carinho e atenção necessários a qualquer bebê."
 

Para avaliar o impacto desse tipo de cuidado no desenvolvimento infantil, o pesquisador americano acompanhou 136 crianças sem doenças, com idade entre 6 e 31 meses. Metade delas foi adotada ou voltou para a família biológica. A outra metade permaneceu no orfanato.
 

Existia ainda um grupo de controle composto de crianças que nunca haviam sido abandonadas. Foram estimados por meio de sensores a atividade cerebral, o desenvolvimento emocional e intelectual, a linguagem e a saúde mental. Os resultados se mostraram desoladores. Os órfãos tinham QI cerca de 30 pontos abaixo, uma média de 70 pontos ante os 100 dos que nunca tinham ido para uma instituição. Apresentavam maior incidência de doenças mentais, 56% contra 14%, respectivamente. As crianças das instituições sorriam menos e respondiam pouco à interação social. A capacidade delas de criar laços afetivos também era menor, e sua atividade cerebral tinha reduções significativas. A pesquisa de Nelson demonstrou também que as crianças retiradas dos orfanatos antes de completar 2 anos apresentaram melhores resultados do que aquelas que saíram mais tarde. "Esse estudo fornece a melhor evidência já obtida de que os primeiros anos de vida constituem um período crucial, no qual uma criança precisa receber estímulos, contato emocional e físico. Caso contrário, o desenvolvimento será bloqueado", afirma Nelson.
 

Embora o cérebro consiga se adaptar e mudar ao longo da vida, essa capacidade diminui gradativamente à medida que o tempo passa. O esforço fisiológico para aprender uma nova atividade é muito maior depois da segunda década de vida do que aos 10 anos e exponencialmente maior quando comparado aos três primeiros anos. Por isso, deve-se investir na construção de habilidades cognitivas, sociais e emocionais o mais cedo possível. Calcula-se que, a cada dólar investido nos primeiros anos de vida, haja uma economia de pelo menos 9 dólares com gastos em saúde mais à frente. "Como regra, qualquer situação adversa que acontece nos primeiros anos de vida é pior do que a que acontece depois", diz Nelson. Entendida a partitura da sinfonia pueril e belíssima dos primeiros anos, a ciência agora busca encontrar mecanismos psicológicos e químicos, por meio de terapias e medicamentos, para dar uma segunda chance ao cérebro dos adultos que foram bebês apresentados à vida de modo torto, sem estimulação, sem cores e sem carinho.


Fonte: Revista Veja – Ed. 2408 / 14 de janeiro de 2015