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O adolescente e a felicidade

Tania Zagury
 

É muito bom que o Brasil produza estudos científicos, sérios e objetivos como o excelente trabalho aqui apresentado por Assis, S. G et al. Tendo em vista a seriedade com que a pesquisa foi desenvolvida, é, de fato, um grato alívio e grande satisfação sabermos que o adolescente se vê de forma positiva, apesar de tudo o que a mídia e a sociedade apresentam. A título de contribuição e aprofundamento do tema, apresentarei, neste artigo, dados que complementam e confirmam o enfoque do estudo em debate.

Em 1996, concluí extensa pesquisa de campo, apresentada para pais e educadores, no livro O adolescente por ele mesmo (Zagury, 1996), que compreendeu a elaboração, validação, aplicação e análise estatística de instrumento de pesquisa com 104 questões objetivas que foram respondidas por 943 estudantes (47% do sexo masculino e 52,4% feminino), na faixa de 14 a 18 anos, pertencentes às cinco classes sociais, residentes em sete capitais e nove cidades do interior, perfazendo 16 estados brasileiros. Os itens abrangiam questões sobre estudo, família, drogas, profissão, lazer, sexo, religião, felicidade e política. Pela extensão e abrangência da amostra, os resultados foram considerados generalizáveis para o universo de jovens brasileiros. Tendo em vista o tema "Adolescência e auto-estima", neste debate, considerei que os resultados do meu trabalho referido seriam oportunos e enriquecedores.

É fácil compreender o quanto os anos da adolescência são difíceis. Afinal, contradições, insegurança e oposição são algumas das suas características. Os adolescentes se sentem imortais, fortes, capazes de tudo, mas também feios, desengonçados, deselegantes. Acne, crescimento desordenado, alternâncias de humor são golpes na sua sensibilidade e orgulho, num momento em que a beleza e a integridade física assumem caráter preponderante. Só esses fatos, entre tantos que se sucedem nessa fase, já constituem pequenas tragédias cotidianas, a partir das quais sobram mau humor e indelicadezas especialmente para pai, mãe e irmãos.

Apesar de o contato familiar se tornar complexo e difícil, é justamente nesse momento que eles mais precisam de compreensão (embora em geral não pareça, dada a onipotência que demonstram). Conhecer, portanto, o que os jovens pensam e sentem pode auxiliar muito o propósito de apoio e entendimento que, espera-se, pais e educadores devem lhes dar. É importante salientar que, à parte o que necessitam nesse período, é essencial para o desenvolvimento saudável das novas gerações não confundir "dar suporte à crise da idade" com "passar a mão na cabeça" e aprovar tudo o que fazem. Estar em crise não dá a ninguém o direito de esquecer regras básicas de civilidade e educação. Muitos pais, na tentativa de apoiar os filhos, numa visão excessivamente psicologizada, conseguem apenas infantilizar e alongar a adolescência, que pode assim perdurar até os 24 anos, se não mais. Não devemos ignorar, eles já estão de posse de toda a sua capacidade cognitiva, passíveis, portanto, de compreender e assumir responsabilidades. Quanto mais cedo desenvolvermos esse processo, melhor para todos. Compreender, amar, dialogar ¬ sim. Sem confundir, porém, com acobertar, superproteger, não lhes desenvolver a autocrítica, a empatia e o respeito pelo outro.

Para o presente artigo, escolhi parte do capítulo 14, que analisa a visão do jovem em relação à felicidade, por sua relação evidente com a questão da auto-estima.

Com que sonha o jovem? O que é mais importante: sucesso financeiro, profissional ou afetivo? O que será felicidade para eles? Serão românticos e idealistas ou pragmáticos e descompromissados? Estas foram algumas das questões que a pesquisa enfocou. A seguir, alguns dos resultados encontrados:
À questão "você inclui o casamento em seus planos de vida", responderam:
Sim: 42,4%
Não está nos meus planos: 13,1%
Pode haver casamento ou morar junto, tanto faz: 13%
Sim, mas só se surgir um grande amor: 29,3%
Não responderam: 2,1%

Em plena era do divórcio, o casamento continua sendo instituição poderosa. Sem dúvida, a família, como tenho afirmado seguidamente, tem muita força, mesmo quando parece que não. A comparação entre classes sociais mostrou diferença significativa ¬ quanto mais alto o poder aquisitivo, maior o percentual dos que têm o casamento como meta: 70% na classe A; 46,1% na B; 43,9% na C; 37,5% na D; e 34,1% na E. A interpretação desse dado talvez possa ser associada ao fato de que nas classes menos favorecidas, com muitas dificuldades, os jovens amadurecem mais cedo e talvez, por isso, tenham menos ilusões sobre a vida. Conhecem as dificuldades para pagar contas, comprar comida, etc. Assim, optam por deixar o casamento de lado, colocando outros objetivos como prioritários.

Outra questão estudada foi "o que consideram que é necessário para um grande amor dar certo". Encontramos os seguintes resultados:
Fidelidade: 24,5%
Objetivos comuns: 6,7%
Amizade: 9,1%
Confiança mútua: 31,9%
Simplesmente amor: 24,2%
Não responderam: 3,6%

O item considerado mais importante foi "confiança mútua", seguido de "fidelidade" e "simplesmente amor", no que demonstraram maturidade, porque, sem dúvida, a confiança entre as pessoas é a base de uma relação saudável e estável. Além disso, revelaram também forte dose de realismo ao apontarem a "fidelidade" em segundo lugar, o que leva a pensar no desejo de preservar a relação. Revelaram também idealismo e romantismo ao acreditarem que o amor é suficiente para uma relação se sustentar. A meu ver, é muito bom que os jovens continuem sonhando encontrar alguém com quem dividir a vida. Afinal, se nem nessa idade se acreditar no amor, quando então?

Na comparação entre adolescentes das capitais e das cidades do interior houve diferença significativa em dois aspectos ¬ 28% dos jovens das capitais optaram pela alternativa "simplesmente amor" e 30,9% pela "confiança mútua"; enquanto no interior 18,3% escolheram a primeira e 37,3%, a segunda. O amor é mais importante para os jovens das grandes cidades enquanto confiança mútua é preponderante para os do interior. A considerar os números encontrados, teríamos de admitir, surpreendentemente, que os jovens das capitais são mais idealistas em relação ao amor que os do interior.

Indagados sobre "o que mais precisa para ser feliz" e, considerando que só podiam escolher uma alternativa, encontramos o seguinte:
Família unida: 29,2%
Ficar com quem ama: 55,5%
Realização financeira: 14,1%
Realização profissional: 0,4%
Não responderam: 0,8%

Os dados revelam um adolescente que valoriza o amor, a família e o trabalho. Quem anda dizendo "no meu tempo era diferente" está, portanto, falando, ao menos nesse aspecto, sem base. Afinal, 55,5% dos jovens apontaram o amor como fundamental para a felicidade, e quase 30% apostaram na família unida. Tem coisa melhor para o bem-estar e a saúde do ser humano?

As outras duas opções denotam pragmatismo, na medida em que colocaram a realização financeira, acima da profissional. Ou seja, se tiverem de escolher entre o trabalho dos sonhos e outro que lhes ofereça melhor condição salarial, muitos optariam pela segunda. Provavelmente, tal achado relaciona-se ao crescente desemprego e à dificuldade de certas carreiras que apresentam mercado de trabalho saturado ou muito problemático.
Essas considerações, ainda que limitadas pelo espaço corroboram a visão positiva do adolescente, no estudo ora em debate. Posso afirmar, sem grande possibilidade de erro, que, salvo algumas exceções, podemos confiar num futuro promissor para a nossa sociedade. Nem as esperanças estão perdidas, nem a atual geração é irresponsável, mercantilista ou utilitária. O futuro existe.

Referências bibliográficas
Zagury T 1996. O adolescente por ele mesmo. Editora Record, Rio de Janeiro.

Fonte: http://www.scielo.br/pdf/csc/v8n3/17449.pdf