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Mente jovem e sem lembrança?

Quem disse que só os idosos esquecem ou sofrem com a perda de memória está enganado. “Situações inusitadas de esquecimento são mais comuns na rotina de pessoas jovens do que se possa imaginar”, diz a neuropsicóloga Gislaine Gil, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo, autora do livro “O que é memória” (Ed. Campus) e pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

 

Gislaine lembra que a memória é a habilidade fantástica de aprender e recordar informações a respeito do mundo e de si mesmo. O problema é quando a pessoa começa a sofrer alterações em um dos quatro estágios da memória: atenção, decodificação, armazenamento e recuperação.

 

Os profissionais de saúde alertam que é possível diferenciar o problema da perda de memória real, que implica em alterações na saúde mental, quando os esquecimentos começam a representar prejuízos importantes na vida cotidiana. E embora seja um fato que ocorra com mais frequência na idade avançada, não quer dizer que não possa acontecer antes.

 

De acordo com artigo publicado pela Revista da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência(SBPC), o que tem havido com a memória dos jovens atualmente é uma sobrecarga de informações. Com isso, ocorre uma excessiva quantidade de elaborações nos circuitos neuronais, que acabam resultando em perda de memória. Segundo o artigo, esta condição se deve ao uso intensivo das plataformas digitais e ao excesso de informações decorrentes dos novos hábitos da vida contemporânea.

 

Segundo o neurocientista Ivan Izquierdo, da Pontíficia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, viver sob o comando do estresse leva a pessoa a sofrer descargas altas do hormônio cortisol, que acaba agindo de forma negativa no cérebro ao impedir que sejam evocadas as memórias. Basta ver pessoas que cantam a mesma canção todos os dias e, do “nada”, começam a esquecer a letra. O mesmo acontece com estudantes que sofrem verdadeiros brancos durante as provas. O que não faltam são exemplos desta situação entre os jovens.

 

Em busca de emoções

A psicopedagoga e a neuropsicóloga Adriana Foz, coordenadora geral do Projeto Cuca Legal - Programa de Prevenção em Saúde Mental nas Escolas, da Unifesp, explica que para entender as distrações e esquecimentos a que muitos adolescentes vivem expostos - e que irritam profundamente os pais – é preciso ter um melhor entendimento do funcionamento do cérebro deles.

 

Todos nós temos uma área no cérebro chamada amígdala - que não é a da garganta – que, na adolescência, está aumentada e mais ativa. “Ela é responsável pelas reações mais emocionais em detrimento das reações mais racionais”, diz. Isso explica algumas atitudes mais intempestivas tomadas por eles.

 

A especialista diz que este processo ocorre em duas regiões cerebrais que estão mais em evidência na adolescência. Uma delas, que faz parte do sistema límbico - região responsável pelas emoções - é a que inclui a tal da amígdala. A outra região é chamada de pré-frontal.

 

A primeira é onde se processam as emoções, onde se dá o sentimento da recompensa. Por isso a busca desenfreada pelo prazer é sempre prioritária para eles. Esta região, subcortical, está bem mais aumentada nesta faixa etária, e é a região que ajuda a consolidar a memória e os impactos sociais.

 

Processa as emoções fortes, como alterações de humor, agressividade e comportamentos sociais mais gregários.Já na região pré-frontal, que só termina de amadurecer por volta dos 30 anos, é onde se processa o controle mais racional de impulsos (breque frente aos riscos), flexibilidade mental, motivação, tomadas de decisões (escolhas).

 

Como essa área ainda não está pronta, ela fica mais ávida por buscar excitação e novidades em detrimento de se controlar diante de algo que foi ponderado. Isso quem faz é o cérebro de um adulto. Esta área, num adolescente, é como uma empresa cujo presidente está sempre em férias, só curtindo e buscando prazer.

 

A influência do meio ambiente

Em seu livro “Homo deletabilis - Corpo, percepção, esquecimento: Do século XIX ao XXI (Ed. Garamond)”, a professora Maria Cristina Ferraz, da Universidade Federal Fluminense, afirma que “a partir das descobertas no campo das neurociências, disseminou- se a tendência de reduzir o fenômeno da memória a neurônios, sinapses, bem como a uma bioquímica corporal moduladora do funcionamento do cérebro. Só que a memória também tem a ver com a experiência de cada um, ao tempo vivido, e não apenas ao espaço (cérebro, arquivo)”. Com o ritmo acelerado da vida contemporânea, essa temporalidade vivida acaba sendo afetada, assim como o regime de memória e do esquecimento.

 

A pressão temporal por eficiência e produtividade esgarça a experiência da duração, produzindo certa impaciência com relação ao tempo vivido, com suas lentidões e “desperdícios”. Evidente que a falta de memória em jovens não é nenhum indício de que possam vir a sofrer da doença de Alzheimer, mas indica, sim, que é preciso estimular a memória ao máximo e pelo maior tempo possível, de modo a manter suas atividades de forma saudável.

 

Isso porque, segundo o neurocientista Ivan Izquierdo, as doenças degenerativas podem acelerar e intensificar a produção de beta-amiloides. Estes, por sua vez, começam a sofrer com o envelhecimento, pelo aumento da produção de pequenas moléculas tóxicas, nas regiões do córtex pré-frontal e hipocampo, onde funciona a memória de curta duração.

 

Daí porque os idosos costumam ter mais dificuldade em evocar memórias recentes do que aquelas mais antigas, como as da infância. Por outro lado, os profissionais são unânimes em dizer que quanto mais se usa a memória melhor para reduzir o déficit funcional que, em geral, chega com a idade. E não adianta pensar que basta fazer palavras cruzadas, pois neste caso, não é suficiente. A neuropsicóloga Gislaine Gil afirma que não existe limite para a memória, quanto mais se exercita a mente com atividades minemônicas, mais se aumenta a plasticidade neuronal.

 

Alimentação O que entra pela boca também pode influenciar na qualidade da memória. Tanto que a especialista observa que a população do Mediterrâneo é a que menos sofre com problemas de memória. Isso, diz ela, tem a ver com o tipo de alimentação deles, que age como umfator importante de proteção.

 

Pesquisa recente aponta que pessoas que consomem maior quantidade de alimentos como tomates, vegetais de folhas verdes escuras e crucíferos (como o brócolis) têm um risco 40% menor de desenvolver doenças que aqueles que não consomem. Esses alimentos também são ricos em ácidos graxos, ômega 3 e 6, vitaminas E e B12, nutrientes relacionados a benefícios como a prevenção do envelhecimento.

 

Sono é essencial

Outro importante fator que leva ao prejuízo da memória é o sono. Ou a falta dele. Seja porque dormem menos ou porque usam a memória demais, algumas vezes não se dão conta do quanto o sono tem um papel importante na qualidade da memória. Sono é essencial, segundo o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Júnior, do Instituto do Sono da Unifesp.

 

O médico garante que a falta de uma boa noite de sono é a causa principal de falhas na memória. Isso sem falar que dormir pouco pode resultar em alterações no sistema de atenção e alerta, o que interfere no armazenamento de informações anteriores. “As lembranças são consolidadas quando dormimos, principalmente no terço final da noite, ou seja, na fase REM do sono, que é quando os sonhos acontecem”, diz.

 

É uma questão de qualidade de vida para os indivíduos, sendo importante para o desenvolvimento normal do cérebro e os processos de memória, aprendizado e regeneração celular. “Enquanto dormimos, são produzidos alguns hormônios que desempenham papéis vitais ao organismo, como exemplo o hormônio do crescimento, também conhecido como GH, presente na primeira fase do sono profundo, aproximadamente meia hora após uma pessoa dormir; a serotonina, hormônio responsável pela sensação de prazer, e a leptina, hormônio capaz de controlar a sensação de saciedade” afirma.

Fonte: Diário Web