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Conflito de Gerações

Alexandre Sampaio Fialho

Este tema tem tomado conta de grande parte das discussões acerca da diversidade nas organizações, e de uma maneira geral, todos acabam tomando tal fato como fator de risco ou de ruptura ao status quo. Pois bem, a dificuldade por parte da liderança em lidar com tal heterogeneidade está ancorada na arrogância em manter-se na zona de conforto ou na falta de abertura para com o diferente.
 

Para exemplificar tal tensão irei reviver um momento que me inspirou a escrever sobre este tema:
Semana passada estava no Chile trabalhando e na última noite resolvemos fazer um embate entre safras distintas de um mesmo vinho, o que é chamado de degustação vertical. Pois bem, escolhemos um vinho emblemático deste país, o Don Melchor nas safras de 1995 e 2009. Estávamos eu com 43 anos de idade, meu colega de trabalho e amigo Chileno Marco com 54 e seus filhos de 21 e 27 anos de idade. De repente iniciamos a dialogar sobre os vinhos e a debater nossas predileções e, curiosamente os mais velhos, eu e Marco, preferimos o de 1995 e os mais jovens os de 2009, caracterizando tal debate um nítido conflito de gerações tanto do vinho quando de seus degustadores e as minhas observações de tal episódio podem facilmente ser transportadas para o dia-a-dia de nossas empresas:
 

• Os mais jovens tendem a falar de maneira mais passional acerca de seus gostos, porém os mais velhos tentam impor de maneira professoral usando, sempre que possível, o valor da experiência independente de que seja de fato um valor;
• Falar de gostos e de verdades absolutas parece ser um fato para ambas as gerações, o diferencial é que os mais jovens o fazem em uma perspectiva presente deles e futura do mundo; já os mais velhos tendem a fazer numa perspectiva geral de passado, tradição e experiência e projetando o futuro desde esta perspectiva;
• A imposição de gostos parece ser um objetivo dos mais velhos, já que para os mais novos tendo apenas o espaço para que eles coloquem seus gostos livremente é suficiente;
• Quando indagados acerca de suas preferencias, o grupo mais jovem argumenta de maneira mais genuína, mesmo que menos articulada; já os mais velhos tendem a discursar de maneira mais estruturada e educativa visando sobrepor seus valores a todo momento;
• Os mais novos demonstram mais curiosidade nos argumentos alheios;
• Os mais velhos refletem mais acerca da experiência, já os mais novos as vivem mais intensamente.
Uma pergunta foi me feita tanto lá quanto aqui por amigos apreciadores de vinho, qual vinho era melhor?
 

Diante desta pergunta me veio uma reflexão chave para parte dos problemas elencados acima, pois respondi que era impossível falar em vinho melhor neste caso, o que é a pura verdade, mas eu poderia falar o que mais eu gosto. Com isso, temos um fator que evita a arrogância estética que se transforma em ética na sequência e abre as portas para a diversidade e o diálogo das diferenças.
 

Conclusões, tentam impor padrões estéticos e éticos para gerações mais novas é um ato de arrogância e resistência aos fatos da realidade heterogênea que vivemos, os mais velhos parecem ser os grandes vilões de tal conflito, pois os mais novos não pretendem impor seus gostos como verdades, apenas querem espaço para que eles existam; os mais jovens parecem ser mais genuínos que os mais velhos, as vezes até ingênuos por falta de uma estratégia ou maior elaboração em seus discursos, porém, muito mais genuínos; e para a geração dos mais novos vai apenas um conselho, mesmo repudiando a pretensão de domínio estético e ético das gerações mais velhas, encontre um caminho para beber algo da água da experiência, mas não se afogue ao ponto de perder a genuinidade que lhe é peculiar, pois no futuro existir será muito mais importante que planejar.