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Alegria de viver

Maria Tereza Maldonado

É a força da vida, a alegre energia amorosa e criativa, o que mais se ressalta em "A representação social do ser adolescente" de Simone Assis e colaboradores. Levar em consideração essa visão positiva que o jovem tem a respeito de si mesmo, como sugerem os autores no subtítulo do trabalho, é, de fato, um passo decisivo na promoção da saúde.


Alguns dos estudos citados no início do trabalho se referem a uma visão psicanalítica tradicional, quando ainda a preocupação com a psicopatologia pintava com cores sombrias a própria normalidade. Atualmente, alguns teóricos, especialmente os que se dedicam ao trabalho com as chamadas "famílias multiproblemáticas", e também os que estão pesquisando mais a fundo as características da resiliência, colocam o foco do trabalho nas competências, procurando reforçar e expandir os aspectos saudáveis, mesmo em indivíduos, famílias e comunidades que passam por grandes dificuldades, que encaram desafios de vida muito difíceis, ou apresentam graves comprometimentos emocionais. O que está funcionando bem, mesmo quando muita coisa está mal? Esta é a pergunta-chave que norteia esta abordagem, em contraposição ao questionamento acerca do que está mal ou poderá piorar mesmo quando a pessoa está basicamente saudável.

Os inúmeros projetos sociais e de desenvolvimento comunitário que incluem o protagonismo juvenil também nos convidam a mudar nossa maneira de olhar para o imenso potencial criativo dos jovens e para a capacidade de atuar como agentes de mudança no contexto em que vivem. Isso mostra como os profissionais que lidam com tal segmento (especialmente nas escolas), com freqüência, subestimam esse potencial, e não criam as condições necessárias para sua expressão. Como dizem muitos profissionais que trabalham em parceria com as lideranças adolescentes: "se o jovem faz parte do problema, também faz parte da solução".

No ano de 2000, tive a alegria de participar do júri do Prêmio Jovens Voluntários. Foram apresentados mais de cem projetos já em andamento, com a participação de jovens entre 14 e 19 anos. Muitos dos projetos nasceram das idéias dos próprios jovens, outros brotaram de parcerias com adultos das escolas, das famílias ou das próprias comunidades. Alguns se destacaram pela originalidade, pela sensibilidade de captar as dificuldades e de encontrar caminhos para enfrentá-las. Os projetos foram realizados em diversos cenários: em escolas, igrejas, praças, terrenos abandonados, hospitais, creches, orfanatos, asilos e até na Internet. As mensagens foram transmitidas por meios diversos: teatro, oficinas de canto, artesanato, atividades lúdicas, prática de esportes, clubes de leitura. A temática também foi ampla: preservação ambiental, prevenção de uso de drogas e de DST/ Aids, reforço escolar, criação de hortas comunitárias, mutirões para melhorar as instalações de creches e escolas, ensino de informática e artesanato, recreação para crianças e idosos institucionalizados.

Nos depoimentos de inúmeros jovens que atuam como voluntários predomina o sentimento de alegria e de realização pessoal quando percebem que sua contribuição faz a diferença. Além de trabalhar com consistência a prática da cidadania, os jovens voluntários atuantes em projetos sociais ampliam sua capacidade de detectar dificuldades e carências em seu entorno, de formular objetivos e estratégias adequadas para alcançá-los, fortalecem sua disposição para captar os recursos necessários para a realização dos projetos, descobrem o valor do esforço coordenado de uma equipe de trabalho, elaboram a persistência e a paciência para tolerar as frustrações e superar os obstáculos que se apresentam, aprendem a reconhecer o valor de tomar a iniciativa para efetuar mudanças em vez de esperar que as coisas aconteçam, evitando adotar uma postura de cobranças, reclamações e críticas inoperantes. E, com isso, atuam não apenas no âmbito do autodesenvolvimento, como também promovem o desenvolvimento de grupos e até das comunidades em que se encontram.

Isso nos remete ao próprio conceito de auto-estima: sua construção, manutenção e reconstrução, com suas oscilações (períodos de maior força e de maior vulnerabilidade) no decorrer do ciclo vital não só do indivíduo, como também de famílias e de comunidades. No estudo de Simone Assis e colaboradores, boa parte dos adolescentes se define com os seguintes atributos: legal, feliz, alegre, simpático, brincalhão, divertido, engraçado e extrovertido. Esses atributos refletem um autoconceito positivo. Definir-se como amigo e carinhoso demonstra o elevado valor do afeto nos relacionamentos. Tudo isso faz com que os autores considerem que o aspecto mais importante do trabalho realizado é o reconhecimento de que os adolescentes possuem uma visão muito positiva de si próprios, a despeito da visão que os adultos e a sociedade em geral têm deles.

Como existe uma profunda interligação entre a auto-estima de indivíduos, de famílias e de comunidades, o devido aproveitamento do autoconceito positivo dos adolescentes poderá inspirar muitas linhas de ação para alavancar o protagonismo juvenil, com suas possibilidades de contribuição para o desenvolvimento das famílias desses jovens e de seu contexto. Convém lembrar que contribuir para o desenvolvimento da auto-estima de outros fortalece a própria auto-estima.

O estudo mostra também que os valores mais fortemente introjetados pelos adolescentes foram: alegria, otimismo, extroversão, capacidade de "brincar com a vida", "prazer em fazer os outros rirem", respeito pelos outros, igualdade entre as pessoas, amizade com franqueza e sinceridade, solidariedade, ajudar pessoas da família e necessitadas. Isso preenche os requisitos básicos para que os adolescentes atuem efetivamente como "construtores da paz", na atual definição holística da paz que significa cuidar bem de si mesmo, dos outros e do ambiente. Convém destacar a importância de investir nesse "capital humano jovem" para efetuar as mudanças de consciência e de ação necessárias para construir um mundo mais viável para nossa gigantesca família humana, com seis bilhões de membros.

Violência e paz num mundo marcado por crises e recessão, com um cenário desolador e um cenário esperançoso. Para que cenário vamos dirigir prioritariamente nossas ações? A escolha do foco do olhar atua em diversas áreas de avaliação sobre a realidade que nos cerca, inclusive sobre a questão da violência e da paz. No início, vimos a passagem do enfoque que priorizava a patologia para o enfoque que prioriza as competências. Muitos autores que estudam a questão da violência e da resolução de conflitos estão enfatizando que, na maior parte do tempo, no cotidiano de todos os povos, os momentos de convivência pacífica sempre predominaram sobre os momentos de conflito destrutivo, desde a mais remota Antiguidade até os dias de hoje. A questão, portanto, não é eliminar a violência, porém encontrar caminhos para ampliar a paz e desenvolver habilidades de transformar conflitos potencialmente destrutivos em terra fértil para gerar soluções razoáveis para todos os envolvidos. Os atributos que predominam no autoconceito dos adolescentes pesquisados podem inspirar os adultos que não conseguiram manter dentro de si essa alegria de viver e a crença na força do amor a resgatar, em seu interior, essas características tão essenciais à boa qualidade da vida de todos nós.

Como sugerem os autores, é preciso que os profissionais que trabalham com a promoção da saúde dos adolescentes aprendam a utilizar esse autoconceito positivo para nortear suas ações, para que o enorme potencial de vida e de saúde possa ser melhor aproveitado nos caminhos do autodesenvolvimento pessoal e coletivo.


Fonte: http://www.scielo.br/pdf/csc/v8n3/17449.pdf