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Adolescência Retorcida

Alexandre Sampaio Fialho

Filosofar sobre essa fase da vida faz todo sentido, pois justamente nessa fase encontramos um terreno fértil para reflexões e significações florescerem, e darem vida a um ser que existirá mais ou menos autêntico dependendo da maneira como acontece essa passagem da vida infantil para a adulta, ou seja, de um período denso em normatizações e condicionamentos para um de forte demanda de um protagonismo existencial.


Esta é uma visão histórica e provavelmente e pertinente; porém, neste texto irei fazer um paralelismo das três transmutações, a partir da obra Assim Falava Zaratustra de Nietzsche. Tal escolha se dá porque a adolescência: primeiro,representa um processo de transformação extrema; segundo porque traz uma visão coerente com o mundo contemporâneo, a pós-modernidade; e terceiro, pois carrega o que Nietzsche chama de vontade de potência, que parece presente nos adolescentes, mesmo que ainda de maneira retorcida. Retorcida, pois na adolescência tal vontade não é uma força genuinamente interna, mas sim um espelhamento que faz com que a interiorização do externo seja espelhada e externada.


Outro conceito nietzschiano que vem a reboque de tais transmutações:atransvaloração de todos os valores, entendida como um ato de aniquilar os antigos valores e criar novos com a implícita prerrogativa de inversão.Assim fecha-se o existir na pós-modernidade, algo como destruir a moralidade tradicional para instalar novos valores, inclusive contrários aos vigentes. Ato de rebeldia, típico da adolescência, contudo, nesta etapa da vida, ainda desprovido de consciência criadora e de uma força interna transformacional, o que novamente nos leva ao retorcimento mencionado acima.


Antes de aprofundarmos nas duas considerações acima, voltemos ao paralelismo nietzschiano: da transmutação do “camelo” para o “leão”, e do “leão” para a “criança”. O “camelo” representa o seguidor aculturado que diz sim a tudo e obedece sem restrições nem questionamentos; o “leão” a força do dizer não, de estancar o aniquilamento existencial do qual o camelo é refém, e de um rugido que abre as portas para algo novo; e, por fim, a “criança” que aqui representa a força de viver genuína, de dentro para fora, com a inocência de quem nada tem de prerrogativas e nem de limitadores socioculturais, um ser livre para não apenas dizer sim à vida e não ao que não lhe convém, mas para construir a própria existência de maneira autêntica, sem o moralismo e nem tradições, apenas uma “vontade de potência” que aflora e ofusca até cegar os guardiões da moral, ao mesmo tempo em que ilumina os transvaloradores para um mundo plural e em perspectiva.


Entendido o conceito que é pertinente ao existir pós-moderno; situemos, agora, a adolescência nessa genealogia nietzschiana, onde tal fase da vida aparenta, de forma retorcida, ser um misto de “leão” e “criança” numa sociedade que age com veemência e violência para transformá-los em “camelos”.Porém, o “leão” da adolescência diz não sem ter sido camelo adulto, ou seja, diz não muitas vezes sem ato inspiracional algum, mas sim em uma exteriorização de um querer ser espelhado em forças extrínsecas. E a aparência com a “criança” de Zaratustra tão pouco é uma evolução do “camelo” passando pelo “leão”, mas sim uma fase de negação a tudo que remete à criança, e uma idolatria ao agir adulto instaura-se.


Idolatria é outro elemento relevante nesta fase de vida, pois o auge da idolatria, seja fanatismo ou mesmo adoração, ocorre nesta etapa, fruto, justamente de um desafio de construção de um existir com tons de rebeldia em estado ainda imaturo; construção essa que ao não projetar uma vontade de potência para a exterioridade, mas sim o oposto, internalizando a exterioridade, faz com que o idealismo tome relevância e se torne ponto identificador e não apenas de referência. Aqui, justamente aqui, encontramos o dilema existencial de tal período, que se muito rígido vira radicalismo e se muito frágil gera perda de identidade, e nesta transação dialética, uma consciência não repressora, genuína e inspiradora precisa ser formada para gestar um ser verdadeiramente autêntico capaz de externar a interioridade ao invés de se espelhar fora de si, e forte e corajoso o suficiente para lidar com tais forças ou vontades de potência. Provavelmente uma pergunta surge neste momento: onde entra o limite ético de tal existência livre? Na intersubjetividade, algo que não carrega em conceito universal respeito nem o certo e o errado, mas inerentemente abriga e formaliza (mesmo que tacitamente), em perspectiva e em pluralidade, as regras destes jogos de convivência.


Assim sendo, Nietzsche em sua ideia de transmutação precisa ser repaginado neste contexto retorcido, já que, não se tratando de um adulto, tal conceito toma traços mais de formação que de transformação pura na passagem pela adolescência. A força transformadora desta fase é desprovida de significados e de consciência, podendo ser uma revolta pela simples revolta ou mesmo um destruir sem ímpeto de construção.


Sendo a moralização parte inerente da formação na juventude, escancaram-se as portas para a consolidação de um “camelo”, ou seja, um ser totalmente aculturado, domesticado e aniquilado em sua interioridade; ou para um leão infantil, um rebelde sem causa ou com causa idealizada, sem consciência nem significados. Essa radicalização natural da fase adolescente somada à polarização de atitudes sociais, principalmente dos entes educadores, ao lidar com estes seres ávidos por vida e potentes em força formadora e às vezes transformadora, instaura-se o choque de gerações, levando ambos os grupos, adolescentes e adultos moralizadores, a se rivalizarem e radicalizarem ainda mais, adiando o plano existencial autêntico desses adolescentes para o “pós-guerra”.


Concluo retornando aos dois pontos citados acima: primeiro o ato de rebeldia espelhada desprovido de consciência; não seria mais salutar, ao invés de tentarmos apenas transformar adolescentes em “camelos”, educá-los para refletirem, para construírem consciência, para dar vazão ao interior sem moralismo e com a responsabilidade do pensar em fruição antes, durante e pós agir na inerente intersubjetividade social? Pois se moldamos o agir a priori, não permitimos uma existência livre, mas sim condicionada! O segundo ponto, a ausência de uma força interna transformacional, faz com que a intenção seja o direcionador da existência dos adolescentes, como também da maioria dos adultos, justamente por tentarem viver o que externamente indica ser a melhor maneira. Isso faz o “camelo” ser um ideal da vida adulta, mesmo que moralizante e niilista e reforça o primeiro ponto, existir sem buscar uma construção através de reflexões, significados, fruição e consciência não moralizante. Lembremos que Imoral é a inautenticidade.


“Maturidade do homem: significa reaver a seriedade que se tinha quando criança ao brincar” Friedrich Nietzsche – Além do bem e do mal.


Alexandre Sampaio Fialho -20/01/2014.