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Gravidez na adolescência: falta informação

A cada ano cerca de 16 milhões de jovens entre 15 e 19 anos dão à luz, em todo o mundo. Um problema que preocupa profissionais de saúde, uma vez que a gestação, em geral, não é desejada e ocorre por falta de informação e a aparente dificuldade em ter acesso aos métodos contraceptivos, conforme demonstra um levantamento recém concluído pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em parceria com indústria farmacêutica, com 3 mil pessoas acima de 16 anos em quatro capitais brasileiras (São Paulo, Curitiba, Recife, Belo Horizonte).

 

O estudo revela que 73% dos entrevistados não usaram métodos contraceptivos na primeira relação sexual e 82% iniciaram a vida sexual até os 17 anos. Na pesquisa, foi constatado também que 54% dos entrevistados já tiveram relações no primeiro encontro e 84% têm filhos. Esta é apenas uma amostra do que ocorre segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) em mais de 70 países, onde os dados são preocupantes.

 

O levantamento da Unifesp tem por objetivo conscientizar a juventude sobre o risco da gravidez, no ano em que o tema escolhido para comemorar o Dia Mundial da Prevenção da Gravidez na Adolescência, ocorrido no último dia 26, foi: “Seu futuro. Sua escolha. Sua Contracepção”.

 

Diversos fatores contribuem para a gravidez indesejada na adolescência como a pressão para casar e ter filhos cedo (costume em alguns países pobres, onde as meninas casam antes dos 18); falta de informação e dificuldade de acesso aos métodos contraceptivos. Ainda de acordo com a OMS, as taxas de gestação entre mulheres com menos estudo é maior em comparação à das mulheres com mais anos de educação.

 

Segundo o ginecologista Afonso Nazário, professor de Ginecologia nda Unifesp, o diálogo é sempre a melhor forma de solucionar as dúvidas dos adolescentes. “Antes do sexo, conversar com o parceiro sobre o melhor método contraceptivo para o casal é um ato de amor entre os dois e de respeito da mulher consigo mesma”, diz.

 

Para Nazário, é muito importante os jovens conversarem com o médico e expor suas dúvidas sobre gravidez e contracepção, pois nem sempre o adolescente pode se abrir com a família. “É preciso mostrar ao adolescente que ele é responsável, sim, por seu futuro e deve escolher qual caminho seguir, conscientemente.”

 

A pediatra Maria Cecília Nigro Batistela, especializada em adolescente (hebiatra), de Rio Preto, explica que o principal cuidado que se deve ter na gestação da adolescente é com o pré-natal. “Esta garota precisa ter atendimento diferenciado, em um serviço de saúde que já esteja preparado para dar apoio e preparar a jovem para o parto. Afinal, é preciso levar em conta que apesar da gestação, ela está em fase de crescimento e desenvolvimento”, diz.

 

Além disso, ela lembra que o acompanhamento da família, é fundamental para dar suporte emocional para a gestante. A médica acredita que na prática, a realidade rio-pretense é de que tem diminuído o número de adolescentes grávidas, graças a mais informação recebida tanto por meio da mídia quanto das campanhas dos serviços de saúde.

 

Outra situação que a hebiatra ressalta é o aspecto emocional que requer muita atenção para que a jovem possa dar continuidade ao aleitamento e só com apoio familiar e profissional isso acontece. A médica diz que após o nascimento da criança, passa a ter até três gerações em seu consultório, já que atendem a mãe da adolescente, a adolescente e o bebê.

 

Na prática, muitas vezes são as avós mesmo que tendem a criar o bebê, já que nem sempre o pai adolescente continua com a mãe da criança. Enfim, é preciso todo um trabalho multidisciplinar para melhorar o vínculo da mãe e do bebê e tornar o puerpério um momento melhor para ambos mãe o bebê”, afirma.

 

Sexo é fonte de prazer quando responsável

 

Acompanhe abaixo a entrevista concedida pelo especialista em ginecologia Afonso Nazário, professor de Ginecologia da Unifesp, ao Diário da Região.


Diário - O que leva os jovens a não se prevenir de uma possível gravidez?
Afonso Pinto Nazário - Apesar de toda a informação que existe nos dias de hoje, muitas adolescentes deixam de se prevenir por várias razões como pressão do namorado para ter relação sexual, vergonha de ir ao médico ou conversar com a família para se prevenir antes de iniciar a vida sexual e até vergonha de pedir para que o parceiro use camisinha. Sem falar das questões culturais como a pressão para casar e ter filhos cedo - costume em alguns países pobres, onde as meninas casam antes dos 18 anos e boa parte das pessoas ainda sofre com falta de informação e dificuldade de acesso aos métodos contraceptivos.

 

Diário - Há jovens que estão radicalizando, ou não transam ou se entopem de medicamentos para não engravidar, o que está por trás disso, em sua opinião?
Nazário - Em relação a abstinência sexual, contribuem para este comportamento não natural, o fundamentalismo religioso e/ou falta de informação. Não deve haver receio em manter uma relação sexual, que é uma fonte de prazer; basta se prevenir contra as doenças sexualmente transmissíveis e contra a gravidez indesejada e para isso, o uso de camisinha e de um método seguro anticoncepcional, como a pílula, são suficientes. No tocante ao uso de vários medicamentos ou substâncias para não engravidar ou para abortar, a eficiência deles é muito baixa, além de produzir efeitos colaterais. É um comportamento de desespero, mas ineficaz.

 

Diário - Como é possível para homens e mulheres se prevenirem sem causar danos a saúde?
Nazário - Para os homens a camisinha é indispensável, pois além de prevenir uma possível gravidez é o único método que previne as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). Para as mulheres, existem muitas opções disponíveis. As mais usadas são as pílulas anticoncepcionais, que hoje são feitas com uma dosagem bem menor de hormônios, trazendo mais qualidade de vida para as mulheres, mas também existem adesivos, injeções mensais e trimestrais, o ideal é a menina consultar o ginecologista que poderá orientar qual o melhor método para ela, depois de analisar sua saúde e o histórico familiar.

 

Diário - Como deve ser encarada o desenrolar da gestação na adolescência?
Nazário - A gravidez na adolescência deve ser considerada como uma gravidez de risco, do ponto de vista médico. As intercorrências na gravidez, parto e puerpério são mais frequentes. De fato, o sistema genital e músculo-esquelético não estão plenamente desenvolvidos e a taxa de mortalidade perinatal (que inclui morte fetal e do recém-nascido) são mais comuns. O peso dos recém-nascidos de mães adolescentes é em média menor.

 

Diário - E no que tange aos aspectos psicológicos como é possível lidar?
Nazário - Sem dúvida, além das implicações físicas, deve-se levar em conta os aspectos psicológicos e sociais. Uma adolescente que se torna mãe, comumente sacrifica vários sonhos e projetos de vida, muitas vezes adiando o término de sua educação e formação profissional, o que pode produzir frustrações e depressão. As implicações não são somente para ela, mas para toda a família, particularmente a família materna. Por outro lado, com frequência o pai adolescente é ausente e a falta da figura paterna pode produzir profundo impacto no desenvolvimento psicológico da criança, mesmo que parcialmente substituída pela do avô.

 

Diário - Nem sempre é possível evitar a ejaculação e, por isso, muitos contam com a “pílula do dia seguinte”, até que ponto ela pode ser usada por uma pessoa, sem que isso cause danos futuros?
Nazário - A “pílula do dia seguinte” não deve ser encarada como método contraceptivo. A pílula possui uma carga de hormônios muito grande, o que pode afetar o organismo, desregulando o ciclo menstrual, por exemplo. É um recurso que só deve ser usado em último caso e esporadicamente. O ideal é que os jovens busquem outras formas como as já citadas para evitar a gestação. É importante que o casal converse antes de ter uma relação sexual, pois a escolha do método contraceptivo mostra maturidade e é também um ato de amor e respeito entre os dois. A consulta ao médico é a melhor forma de esclarecer as dúvidas do casal para que possam escolher qual caminho seguir com responsabilidade.


Fonte: Diário Web